Discussão de plenária realizada no primeiro dia de Enfasud tensiona perspectivas dissonantes entre professores e fundações de apoio em busca de atendimento empático e eficiente
Lívia Laudares
O “atendimento de excelência ao coordenador de projetos” foi destaque de mesa temática no primeiro dia do 4º Encontro de Fundações de Apoio do Sudeste (Enfasud), que reúne mais de 380 participantes para debater temas estratégicos para as fundações e seus parceiros. O evento, organizado pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep), em parceria com o Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), acontece na Escola de Engenharia da UFMG, em Belo Horizonte.
Mediado pela diretora da Fundep, professora Elizabeth Ribeiro, o debate teve a participação do professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Andre Ricardo Massensini, do professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, Paulo Roberto Gardel Kurka, e do gerente de projetos Fundep, Thiago Mariano.
Com um tipo de atividade que demanda processos bem delineados e conta com a intersecção de outros órgãos públicos e empresas privadas, os prazos e o próprio andamento de solicitações e tratativas de reclamações podem tornar-se desafios para aqueles que possuem pontos de interação com as equipes das fundações de apoio. Os analistas das fundações são os profissionais que estão na ponta do atendimento aos integrantes de projetos, especialmente aos coordenadores, que atuam na gestão das iniciativas financiadas.
Entre a aderência a processos pré-estabelecidos e as solicitações que promovem quebras nesses procedimentos, a modulação de expectativas e um atendimento de qualidade podem ser fatores decisivos para o bom andamento de iniciativas de ensino, pesquisa e extensão.
Acompanhe os principais pontos elencados pelos participantes durante a discussão:
DESAFIOS DA PESQUISA NO CENÁRIO BRASILEIRO

Em uma oportunidade de debate com perspectivas distintas dois professores, que desenvolvem importantes projetos de pesquisa junto à Fundep e outras fundações de apoio, elencaram principais desafios em relação às formas financiamento disponíveis para os projetos e sobre o atendimento realizado pelos analistas e gestores das instituições que administram os aportes.
O professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, Paulo Kurka, iniciou sua fala localizando o Brasil no cenário mundial de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). O país possui 55% de suas iniciativas de pesquisa vinculadas a recursos públicos, contra 30% dos Estados Unidos e 35% da Europa. Sendo assim, as relações entre pesquisadores e fundações de apoio tornam-se ainda mais relevantes e complexas. Dessa forma, um dos objetivos do país deve ser a busca por um maior alinhamento com o setor empresarial para transformar pesquisas em produtos e tecnologias.
Pela relação direta entre pesquisa e aportes públicos, Kurka ressalta que existem tensões entre fundações e coordenadores de projetos pela rigidez promovida pela observância a normas que podem estar desatualizadas e/ou conflitantes entre si. A demora nos prazos poderia, segundo ele, igualar o processo das fundações de apoio ao processo de aporte direto via Universidade, o que iria contra a natureza das fundações, de promover maior agilidade. “O atendimento à legislação não pode ser um marco absoluto de uma fundação de apoio. A ampliação da parceria entre a instituição e o executor pode facilitar processos e eliminar barreiras que, por exemplo, impedem pesquisadores de realizar compras em épocas como recessos e férias universitárias”, explica.
A opinião de Kurka sobre ter as fundações como parceiras dos pesquisadores é compartilhada pelo professor do – Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, André Ricardo Massensini. Para ele, a relação entre pesquisador e quem realiza o atendimento deve ser de confiança e ciência da sensibilidade do projeto. Além de um trabalho administrativo operacional, a proposta do professor é de que as fundações de apoio atuem de forma estratégica na relação com os gestores do projeto, promovendo agilidade e eficiência.
Massensini propõe que, diante das diversas burocracias legislativas, é preciso manter o entendimento da importância do tempo para um projeto de pesquisa e seus participantes que, por muitas vezes, são bolsistas com prazo de atuação curto e definido. Para ele, previsibilidade é a palavra de ordem, já que as fundações de apoio têm seus tempos e movimentos, assim como os projetos. A compreensão dos coordenadores de quais são e como são determinados os fluxos e prazos pode ser uma virada de chave.
Uma das demandas é manter uma comunicação institucionalizada, em que as conversas entre coordenador e fundação de apoio ocorram de forma objetivo e no momento correto. Com isso é possível, por exemplo, alertar os integrantes do projeto sobre pontos críticos antes de se agravarem. Para Massensini, a atuação das fundações de apoio deve ser consultiva, especialmente sobre requisitos legais e administrativos.
Outro ponto levantado é a necessidade de promover personalização a partir da compreensão de que cada projeto tem sua singularidade, características de sua área de atuação e adequações necessárias diante dos processos burocráticos.
Massensini elencou vários pontos de melhoria para a relação com os coordenadores de projetos, como a digitalização e sistematização de processos, atendimento personalizado e especializado, criação de manuais sobre os principais temas, capacitação contínua dos coordenadores e equipes, modernização de processos, além de uma postura proativa. “Atendimento de excelência por parte das fundações significaria eficiência com empatia, e como eu sou um pesquisador das neurociências, a empatia não é só se colocar no lugar do outro, mas sim, sentir e compartilhar a experiência do outro”, finaliza o professor.
EFICIÊNCIA COM SEGURANÇA JURÍDICA
Apesar do reconhecimento de que, por muitas vezes, as fundações possuem dificuldades de entendimento da perspectiva do coordenador, o que rege a atuação dessas instituições está além dos protocolos internos. O gerente de projetos da Fundep, Thiago Mariano, ressaltou que são seguidas legislações municipais, estaduais e federais, além de regimentos das Universidades e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs). Para isso, além da capacitação técnica da equipe, é necessário estar preparado para responder às diversas instâncias de monitoramento do trabalho desenvolvido.
Thiago Mariano reforça que a atuação da Fundep é pautada pela promoção de uma boa relação com os coordenadores, associada à lisura institucional. “Costumo brincar que os professores têm aversão à palavra burocracia. Nós, temos aversão às palavras glosa e diligência. Ao final, nosso objetivo é dar suporte aos coordenadores e aos projetos, para que não sejam questionados em instâncias superiores”, comenta.
Mariano ressalta que a manutenção de um bom atendimento é um desafio diário para a Fundep e que algumas ações foram tomadas para mitigar dificuldades. Entre elas, está a divisão de carteiras, com analistas especializados por órgão financiador ou tipo de projeto. Eles trabalham com menor número de clientes para se tornarem um ponto focal consultivo e administrativo. Além disso, mudanças nos postos de trabalho aproximaram as áreas de projetos e compras, melhorando o fluxo de demandas.
A mediadora da plenária, a diretora da Fundep, professora Elisabeth Ribeiro, levantou a importância da empatia recíproca entre colaboradores das fundações e coordenadores de projetos. Ela reforçou que é preciso diferenciar dois relevantes conceitos do debate. “A eficiência não pode ser conceituada apenas como agilidade. Se um projeto não tem credibilidade, o coordenador não está sendo bem atendido”, afirma.
A visão é compartilhada pelo presidente da Fundep e professor da UFMG, Jaime Arturo Ramirez, que reforçou a relevância jurídica das fundações. “A legislação do nosso país não está preparada para a pesquisa de ponta. Eu já estive do lado do pesquisador e ainda atuo como docente da UFMG. Não temos como criar a agilidade pretendida dos parceiros internacionais. Quando, há algumas décadas, o CNPq deixou de passar os recursos diretamente para o pesquisador, eu entendi que o professor não sabe como gastar o dinheiro e precisa de uma fundação de apoio. Dessa forma, o risco metodológico é do pesquisador, mas o risco da execução é todo da fundação, inclusive, ligado ao CPF do gestor da instituição”, relembra.
Com diversos pontos de vista e saídas elencadas como melhorias, o debate agradou aos participantes. A assistente de relações públicas da Fundação Artística, Cultural e de Educação para a Cidadania de Viçosa (FACEV), Júlia Pediçolto de Melo, diz que o evento é uma excelente oportunidade de compartilhar vivências das diversas instituições. “Vemos que algumas problemáticas são comuns e que temos a oportunidade de levar propostas até mesmo para o legislativo. A plenária ressaltou a importância de saber se comunicar com o coordenador, atuando dentro da legalidade. No meu trabalho, eles são meus clientes e, por isso, é preciso saber traduzir numa linguagem acessível para ele, mantendo o posicionamento institucional”, conta.
SOBRE O ENFASUD
O 4º Encontro de Fundações de Apoio do Sudeste (Enfasud 2025), realizado nos dias 29 e 30 de maio, em Belo Horizonte, tem como propósito fortalecer a articulação entre as fundações de apoio das instituições de ensino e pesquisa da região Sudeste, promovendo o compartilhamento de experiências, desafios e soluções inovadoras. Com uma programação diversificada, o encontro promove palestras, mesas temáticas e espaços de networking para gestores e colaboradores das fundações.
No mesmo ano em que completa 50 anos de atuação, a Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) assume a realização do evento, em parceria com o Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies).